Uma voz que se faz notar

Darcy França Denófrio*

Sônia Maria Santos acaba de publicar Todas as Fábulas (Goiânia: Kelps, 2006), o seu quarto livro de poemas.
Leveza é uma das principais características visíveis no texto lírico de Sônia Maria Santos. Das seis propostas de Ítalo Calvino para o terceiro milênio, leveza é uma delas. Ítalo Calvino, também escritor, no crepúsculo do segundo milênio escreveu a obra Seis propostas para o próximo milênio. Ele afirma que os fatos da vida que devem servir de matéria prima para o escritor, quando transpostos para a obra, parecem de pedra. Um dos grandes empenhos do escritor seria o de tentar reverter isto. Em Todas as Fábulas, a autora consegue, com sucesso, driblar o peso do mundo ou a dor humana de viver.
Sônia pode extrair “da memória” o que “chora” e até “o que sangra”, mas o tom é de resignada assunção da parte que lhe toca. Uma das maiores angústias existenciais do homem, já dizia Schopenhauer, é saber da morte. No entanto, a voz lírica de Todas as Fábulas, mesmo que conheça o seu destino humano — “Braços e pernas me levam,/ me levam sem pena” ou “Sei que o tempo me leva sem pena”; mesmo sabendo-se “Apenas um fluxo, o tempo, e o brilho de uma estrela” — permanece como o seu vaso chinês sobre a mesa: “fico serena, suspensa”.
Chama-nos a atenção as imagens polares, antitéticas, quase paradoxais, nos poemas dessa poetisa que já se impõe como sendo uma das vozes mais notáveis de nossa literatura. Podemos citar como exemplo, entre outros, o poema “Quase Reza”. A metade da peça literária (cinco versos) puxa para um pólo; a outra, exatamente para o pólo oposto. Vejamos:

Ainda longe da manhã
e tenho a cruz
o copo de cicuta
e outras fúrias
na memória,
embora eu guarde
as pálpebra descidas,
a boca
e as mãos ainda serenas
para o dia.

Impossível ler o livro de Sônia Maria Santos sem perceber o seu modo peculiaríssimo de tematizar a questão feminina. Modelar, nesse sentido, é o poema “Confirmação”:

Depois do sétimo dia,
de saborear o fruto
(já nascida de uma costela),
eu teria dito ao Senhor:
— Vou carregar pedras
e tudo que o valha,
para entender os desígnios
e as coisas todas
como as verei,
e o seu avesso.
Não por castigo.

Mulher do terceiro milênio, Sônia, assim como sua própria mãe no poema “Cheia de graça” (note-se a alusão a Maria Santíssima). “desdobra/ o morim “Ave Maria”, alvíssimo,/ com a face nova”. E realiza     “Principalmente,/ longas singraduras/ pelo mar de dentro”. Se a autora não perscruta mais fundo esse tema, sugere muito bem, com a determinação que lhe é própria, que não assume solitária essa culpa que recai milenarmente sobre a sombra de Eva, vale dizer, sobre os ombros da mulher — a culpa, o pecado original, o grande mal circulando pelo sangue materno — desde a queda no paraíso. Seu destino de Eva, sofrer por castigo, a voz lírica teria contestado a Deus, ainda chamado Javé, no Gênesis bíblico:

 Eu teria dito ao Senhor:
— Vou carregar pedras
e tudo que o valha,
para entender os desígnios
e as coisas todas
como as verei,
e o seu avesso.
Não por castigo.

Encontram-se algumas ressonâncias de Adélia Prado em seus poemas. Não somente “o fogo da fé”, o tema Cristiano-católico, mas o fato de, às vezes, podermos flagrar aquela herança cristã de redenção pelo sofrimento.
Em Oráculo de maio (São Paulo: Siciliano, l999), no poema “O ajudante de Deus”, temos Adélia:

Invoquei o Santo Espírito.
ele me disse: sofre,
come na paciência
esta amargura
(…)
Toma o pequeno cálice,
massa de cinza e fel
não transmutados
(…)

Em Todas as Fábulas, Sônia “Na via-sacra” (a sua própria?), entrega-se, com rara delicadeza, ao sofrimento, sem contestação:

Impossível (…)
não levar a cruz
a rosa com lágrima
a face já inclinada.

Guardadas as sensíveis diferenças de estilo entre ambas, a imbricação do sagrado com o profano é também algo que as irmana. Em Sônia, o fenômeno comparece nos poemas “Mística” e “Entre cinzas”, além de outros, sobretudo na seção QUASE REZA.
Humanas, com seus sentimentos humanos peculiares, podemos flagrar as duas. Adélia, no poema “O santo ícone”, da obra mencionada, extravasa seu sentimento de raiva e, finalmente, se aplaca. Sônia, em “Prazer secreto”, destrói uma flor, que pode ser pura metáfora. Somente ela sabe o que destrói. Todavia, diferentemente da autora mineira, o faz com muita sutileza, lembrando-nos a receita de Emily Dickinson que recomenda dizer toda verdade, mas de forma oblíqua. O sucesso consiste no giro, no circunlóquio, enfim, na dissimulação. Vejamos, de um poema sem título (o que é comum em sua obra), dois versos metalingüísticos da clássica poetisa americana, extraídos de Uma centena de poemas (São Paulo: T. A. Queiroz: Ed; da Universidade de São Paulo, l984) e que representam a sua receita, já mencionada:

Tell all the truth but tell it slant —
Succes in circuit lies.

Diz Sônia:

Vou ao miolo
decompor
até o fim a flor
aberta
completa
esguia
no meu jardim.

Seu fino sangue: sumo
entre os dedos
é suprimento,
prazer secreto
que carrego
sem estranheza.
(Feito criança).

Algo notável na poesia dessa autora goiana é o domínio do ritmo.  Assonâncias, aliterações, rimas toantes (e, muito raramente, ocasionais consoantes); versos de boa medida e enxutos, tudo isto forma um tecido lírico extremamente agradável aos ouvidos. Se não aprendeu em manuais de teoria literária, absorveu isto na leitura de bons poetas.
Destacaria, ainda, poemas metalingüísticos, outros com vocação para o existencial, todos afinados com a poesia de nosso tempo. E, finalmente, algo muito especial, próprio da alma de Sônia: seu espírito de mulher guerreira. No poema “Petição”, ela arremata de forma incisiva:

É que os dias sem luta
não me servem para nada.
Nem para comer e beber à mesa.

Como poetisa, Sônia se impõe em nossa literatura. Como mulher, pode ser motivo de orgulho a todas suas companheiras de espécie.

* Darcy França Denófrio é professora aposentada da UFG, poetisa, ensaísta e crítica literária.
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