Todas as Fábulas: Sônia Maria Santos

Faço tapete no deserto, (rezo)
entre areia e vento,
como quem se salva
na fração do dia.

Quero a poesia:
a flor, a essência, (a inevitável)
a que cobre,
vez ou outra,
a multidão dos meus pecados.

Este critério usado por Sônia Maria Santos é um critério de oração, que nos chega de mansinho, sutil, eivado de uma essência quase inocente, pura, mas é também um critério de economia de palavras, de condensação de linguagem, de espiritualização poética moderna, fruto de quem vive seu trabalho e deixa o seu legado nas lembranças mais simples “como se eu não tivesse outro papel no mundo/ nessa manhã/ nessa cidade na rua qualquer/ quero as palavras, mais sentidas do que pensadas.” E se quiserem outra assertiva, digo que é uma poeta diante de si mesma em oração, a eliminar as pontezinhas que a separam de suas referências, dos elementos que entram na esfera poética de seus sentimentos. Tudo são versos, e simples, de uma simplicidade encantadora, atingida somente por aqueles que possuem o sentido mágico da criação e permanecem em estado de permanente permuta com a natureza. “Onda erguida de um mar só seu,” cujas imagens correm nas águas da infância. Tudo é medula e sangue. As palavras testemunham justamente o amálgama que conduz os atos de Sônia Maria Santos parece testemunhar a existência do mundo e do ser humano desde o seu princípio, até agora, um necessário conhecimento de si mesma, pois o que o viver está muito próximo do escrever.

Tudo é medula, sangue:
humana veste
(e tudo é alma)
desde Adão e Eva
e a Serpente.

A poeta aceita e trabalha em única direção, mas aponta os vários e variados caminhos, contidos neste livro, que centralizam a vida do ser humano: o instrumento sutil de uma realidade aparente: um salto de ansiedade sobre coisas de profunda reflexão, a audácia de percorrer veios de transposição da angústia do homem; a condição de questionar situações de humor, de misticismo, de ironia, que se apresentam como extensão referencial de toda a sua poesia. Os sentimentos sendo objetos dos sentimentos. Os fundamentos do conhecer filosófico de uma realidade cotidiana, por vezes hostil, de uma hostilidade apreendida entre os dedos. Uma ligeira consciência permanente e contínua entre as linhas de fuga do coração. Assim, a poeta assume o que vê e encontra no seu lidar do dia-a-dia, e os aborda como substância ideal, sustentáculos para a articulação de seus versos.

Mais do que meus olhos,
durarão os dias,
os livros,
as pétalas
entre páginas;
essa sala,
esse casulo
do qual me solto
aos poucos
no ar do mundo.
Apenas um fluxo, o tempo,
e o brilho de uma estrela.

O tempo, as estrelas, as coisas que anunciam a solidão, as imagens que nutrem os fragmentos da realidade; a proximidade que se verifica entre a mulher, dona-de-casa, cuidadora de tudo, e o ser poético que cria, inventa, sofre as dores do mundo, numa dialética mágica, como num acordo entre duas vidas, ou entre dois planos. É a decifração do poeta, da visão de seus olhos, do encantamento de ser-se homem e Deus, numa espécie de constante ludismo. Ou no dizer de Júlio Cotázar “A essência do escuro vento”. Ou ainda, para citar Jonh Keats: “Se um pardal vem à minha janela, participo da existência dele e bico os grãozinhos de areia…” Penso, então, que a nossa poeta participa de tudo que a envolve emocionalmente, claro, põe seus olhos em lugares comuns que as outras pessoas não conseguem enxergar, no procedimento, no domínio e magia do poema.

José Gorostiza afirmou certa feita que: “em minha própria casa como na alheia, acreditei sentir que a poesia, ao penetrar na palavra, a decompõe, abre-a como um capuz a todos os matizes de significação”. Além disso, Sônia Maria Santos acrescenta algumas abordagens específicas para o fazer poético, de maneira ampla, sem nenhum conflito, com se vivesse várias vidas. Assim, são postos marcantes de sua trajetória literária, movendo-se na linha do tempo: livros, sim, claro, de absoluto pressentir; o vaso chinês; a palpitação dos pássaros; o rumor do silêncio; o remanso dos rios, a agitação do mar que absorveu inúmeros segredos; e mais: todas as fábulas a ela pertencem, assim como os rumores, os pássaros, o silêncio, as rezas, as raízes, as iguarias, a toalha branca sobre a mesa, as adivinhações da alma, o espelho embaçado da infância, os sonhos vindos do Sol ou da Lua, o quarto, as portas, as janelas, a angústia de ser-se centelha e cristal, a sensibilidade que busca a palavra exata no momento exato para se conseguir uma boa poesia.

A idéia
que faço do mundo,
levo comigo
com o vestido que uso
assuntos que ouço
dias que rimo.

Ilusões, incertezas,
sobre a mesa pousam.
Nunca o mundo sonhado,
que canto como posso,
como um padre-nosso.

Estou convencido de que quando a poesia a visita, e penso que é a todo momento, Sônia Maria Santos constrói o seu Barco e embarca sozinha para esse encontro fortuito, dando de passagem os pontos de intersecção dos mistérios que se somam às forças dos primeiros versos já desfraldados. Dizem que estes primeiros versos são sopros de Deus e que os demais serão conseguidos com o suor do poeta.

Tudo se resume
e se dissolve
a todo momento:
o próprio corpo, e dentro
a dor que trago.

Indago, insisto:
deslizo no poema,
no seu sistema,
como se fosse um oráculo.

Sônia nos dá um mínimo de linguagem e muito de imagem, que estas, como o amor, se fiam com seu “próprio fuso”. Talvez agora se compreenda melhor a trilogia de livros publicados por Sônia Maria Santos, num crescendo, em nível do amor, dos corpos, da alma e com a soma de todos os sentidos: o primeiro deles, A Teia dos Dias, foi editado no ano de 1985, Goiânia, Universidade Católica de Goiás, com prefácio de Maria Helena Chein que, acertadamente, afirma: “Sônia Maria Santos tem a poesia nas mãos nos dedos e olhos. Sua cabeça é poesia, dessa que dinamiza o cérebro e nervos e rasga o profundo para sempre”. O segundo livro Casa do Tempo, editado no ano de 1995, Goiânia, Editora Kelps, saudado por José Asmar que, a certa altura do prefácio, diz o seguinte:

“Sônia Maria Santos confirma a virtude dos versos espontâneos. Inclusive, sob qualquer impulso técnico ou de estilo, seu poema dispensa guardas e salvaguardas normativas”. O terceiro, Mar Invisível, foi publicado no ano de 2000, Editora Kelps. Stella Carr fez uma sucinta e perfeita descrição do livro: “Encontro um lirismo de textura mansa, pequenas pecas de tristeza, sem lanhos de amargura, apenas roçando leves nostalgias. Mais o amanhecer e o despertar, que o exprimido suco do desencanto”.

Sigo, então, neste quarto e belo livro, as margens que nos dão os poemas de Todas as Fábulas, trilhamos nele juntos, com somas e acréscimos de propriedades: Quase Reza, Oráculo, Sintonia, que formam no todo um livro do nosso tempo. Presença inequívoca de uma poesia que se faz necessária para a modernidade. Instrumento lírico verbal que nos concede, pouco a pouco, o sentido do viver e vivenciar a vida, que nos atinge e nos envolve com todas as suas nuances. Seus poemas nos chegam de mansinho, assim como sua autora, pequena e frágil, mas com pureza e força que arrastam correntezas, e nos deixam cientes que poesia “é o eco da melodia do universo no coração dos homens”.(Rabindranah Tagore).

Todas as Fábulas

Sobre a mesa
a toalha é clara,
os dedos:
Os nós do tempo.

Comemos, bebemos,
e todas as fábulas
já são ouvidas
além do reino.
Alegria pura
é possível ainda.

Os poemas de Sônia Maria Santos se sustentam na lúcida vigília de seus sentimentos, como no dizer de Cristian Science “o nada da matéria e o todo do espírito”.

Goiânia, 13 de janeiro de 2006
Miguel Jorge

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