Tempo e lugar para o secreto e o sagrado

Heloisa Helena de Campos Borges*

Como não pensar em questões incomuns e filosóficas quando se tem em mãos um livro com o título Matéria da Alma e, ainda, o poema que lhe empresta o nome assim diz:

Danço ainda, com uma flor na boca

a esperança toda numa valsa.

Da alma, a matéria o tempo não gasta:

prossegue, amante, peregrina;

entre a alegria e o assombro

das horas repetidas;

entre a luz que chega e cega

a da que suavemente pousa na retina.

Merece destaque o verso – a matéria o tempo não gasta, pois escrito sem a facilitação da pontuação elucidativa, cria uma lacuna discursiva que possibilita a mudança da ordem das palavras, permitindo ao leitor ler este mesmo verso pelo menos de outras duas maneiras: a matéria não gasta o tempo ou o tempo não gasta a matéria.

Nada inocente essa mobilidade é. Ainda mais que, ao propiciar maior liberdade de leitura, instiga outras possibilidades de interpretação, o que é também um recurso da escritura literária, em oposição a uma única e irrefutável decifração do texto.

Além do mais, estes estranhamentos da linguagem instalam atmosferas guardadoras de traços singulares das composições artísticas, favorecendo novos olhares sobre a arte de criar, suscitando indagações, sejam teóricas, sejam temáticas ou mesmo metafísicas, como esta que me assoma no momento: alma tem matéria?

Posso responder que sim.

Tomando por base os fenômenos da natureza, é incontestável a valia do ajuste de elementos contraditórios. Basta observar: o calor do dia, o orvalho da noite, a chuva do plantio, o estio da colheita, o frio, a quentura, enchente e baixio das águas, mudanças estas que nutrem, revitalizam.

Ora, paradoxos como estes que consumam a existibilidade do universo sempre são e serão bem acolhidos, pois todos sabem que a alternância dos ciclos é necessária, porque essencial para o equilíbrio e perpetuidade da vida.

Igual acontece com os homens. Também é perceptível a alternância dos sentimentos: amor, ódio, bondade, agressividade, angústia, brandura, solidão, alegria, melancolia, esperança, enfim, ajustes internos característicos dos períodos claros e sombrios do viver. Isto está registrado no Eclesiastes (3:1–9), livro bíblico, que assim ensina sobre a instabilidade humana: Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu: (…) tempo para abraçar, tempo para se separar, tempo para calar e tempo para falar, tempo para amar e tempo para odiar, tempo para a guerra e tempo para a paz…

Portanto, vê-se que o tempo é um dos princípios essenciais e determinantes da existência.

Santo Agostinho também se debruçou sobre o enigma do tempo. Para melhor demonstrá-lo, ele empregou o termo distentio animi – distensão da alma – e propôs o sentido de distensão como resultante de uma extensão.

A alma dilatada pelo tempo favorece junções e acomoda a coexistência do que foi, do que é e do que poderá vir a ser vivido. E, a partir desta convivência de experiências passadas e presentes, a alma se alimenta com impressões assíduas, resistentes, pois o tempo tanto avança, quanto permanece, tanto pode ser medido, quanto impreciso, porém sentido, sempre.

Matéria da Alma é um livro que demonstra ser o tempo o elemento que impulsiona e constitui a vida.

Repartido em três momentos: 1– Matéria da alma; 2Nada mais santo; 3 Tudo é poesia, tem por esteio o ir e vir do tempo. Em todos eles, o fazer poético enxuto e contundente de Sônia Maria dos Santos, comprovando o ensinamento do ensaísta Antonio Cícero que assim diz: Passar a limpo um texto é retirar-lhe tudo o que não lhe pertence por direito, modificar o que deve ser modificado, adicionar o que falta, reduzi-lo ao que deve ser e apenas ao que deve ser. No caso de um poema, faz-se isso até o impossível, isto é, até que ele resplandeça. O que resplandece é o que vale por si: o que merece existir.

Transitando no tempo e aflorando sensações tão plenas de significação, os versos de Sônia Maria dos Santos apresentam-se especiais. Não apenas porque versos brotados da sua alma e substanciados pelo seu tempo, mas também porque estruturados no terreno da poesia, terreno este definido por Octávio Paz como um lugar de revelação.

Revelação de um mundo que cria outros mundos, pois as palavras dos poetas só lhe são próprias até serem lidas. Compartilhadas, transbordam, tornam-se alheias, universais.

Alguns poemas do livro Matéria da Alma são apreendidos com rapidez, devido ao comum pertencimento das lembranças, como este:

Faço a lição

Escrevo uva,

escrevo,

enquanto a porta bate

e o vento abre

na lição do V.

Soletro,

uso a língua

e ainda os dedos.

E mais,

soletro alto

(…)

O hoje traz o ontem para o agora. Isto acontece por meio da porta que bate e do vento que abre na lição do V, consoante sonora, por si mesma já sopra, e, neste poema, sopra profundamente, fazendo voltar o tempo das cartilhas, das lições de casa, momentos caros também para o leitor.

É importante destacar os versos: e o vento abre/ na lição do V. Neles, o fato de o verbo abrir, verbo transitivo, não explicitar o seu complemento é proposital, porque o vento não abre apenas a porta, ou a subentendida cartilha, mas principalmente a memória. Por meio dela, fatos e sentimentos retornam.

Já outros versos exigem maior atenção em seus desdobramentos, visto que usam metáforas para simbolizar a passagem do tempo, como no poema:

Não mais

Folhas e folhas

a mantilha é longa

o outono me veste;

fia e tece

o que sou ainda:

louca e santa

e de poesia ferida.

Não mais

na face oculta da lua:

efígie pálida, medieval,

sombria.

O emprego das palavras: folhas, mantilha, outono, é demonstrativo do tempo que fia e tece a sua passagem. Mas o emprego do advérbio de tempo ainda evidencia a permanência da essência do ser desta voz lírica que assim se explica: o que sou ainda/ louca e santa/ e de poesia ferida. O advérbio ainda traz em si o sentido de continuidade.

Se no poema Faço a lição, o advérbio significa a permanência de um gesto: Soletro,/ uso a língua/ e ainda os dedos, no poema Não mais simboliza o perdurar de qualidades: o que sou ainda,/ louca e santa/ e de poesia ferida.

Apesar das diferenças, nos dois exemplos acima é nítida a demonstração de que o tempo é passagem, mas nem sempre destruição. Vê-se, pois, que seja considerando-a a partir dos fenômenos físicos do planeta, ou dos motivos internos que regem o ser dos homens, é certo afirmar: a vida é consubstanciada pelo tempo.

E a linguagem poética, com a densidade e a imagética que lhe são peculiares, registra de modo extraordinário estas junções mnemônicas comprovadoras da distensão da alma, como ensina Santo Agostinho.

Tempo, memória, alma, vida. Nessa mistura, a justeza do nome Matéria da Alma. Daí, as lembranças sustentando os poemas. Mesmo quando as palavras transformam-se em desenhos e remodelam imagens inesquecíveis. Deste entrelaçamento de linguagens artísticas, a pictórica e a poética, resulta o poema:

De Van Gogh

O sol desce pelas cortinas,

põe na cama seus arabescos,

na tarde a alegria.

Aqueço-me.

O inefável é isto.

Desce ainda (como se pudesse)

uma constelação de girassóis,

amarelos

elétricos

de Van Gogh.

Palavras sem tempo, palavras de sempre. Eis outro recurso poético visível nos poemas de Sônia Maria: a intertextualidade, que é a presença de rastros de criações de tempos anteriores a interagir com composições do tempo de agora.

São textos que, implícita ou explicitamente, guardam em sua feitura inesquecíveis instantes líricos, míticos ou bíblicos, e revisitados, transformam-se em importantes instrumentos com jogo de dupla visibilidade da escritura, a de agora e a anterior, devido aos ‘aprontamentos’ feitos pelo escritor.

De certo modo, pode-se dizer que esta superposição de escrituras, agora intencional, assemelha-se às superposições ocasionais dos seculares palimpsestos.

Exemplo desta imbricação é o poema Silêncio.

Silêncio

Às três da tarde

para o coração.

A vida para

às três da tarde.

Para o ar o seu fluxo.

Ajoelho-me.

Às três da tarde

na adoração do Senhor Morto.

Às três em ponto.

Na sua estrutura, como pano de fundo, marcas dos famosos versos do poeta espanhol Federico Garcia Lorca: A las cinco de la tarde, a las cinco in punto de la tarde.

Outras interações textuais são perceptíveis também nos poemas Vou alto, Mais belos, Monólogo, Ardendo em cores, De relance, nos quais a autora recorre a personagens bíblicos: Adão e Eva, o apóstolo João, Moisés, ou a lugares míticos como o rio Letes, o rio do esquecimento, ou a momentos cruéis denunciados pela apropriação de decretos bíblicos como olho por olho, dente por dente; ou emprega palavras que nos impelem ao extraordinário, porque portadoras do elemento fabuloso, como o verso do poema: vou alto/ no meu velocino, termo que remete à história mitológica de Nefele, seus filhos Heles e Frixo e o Velocino de Ouro.

Vê-se que os versos de Matéria da Alma são tempo e lugar para o secreto, para o sagrado, para o imprevisível, para o sensitivo, porque devolvem o que aconteceu, o que foi esperado, o que permanece ‘bicando’ na memória, como assim canta a própria poetisa:

Nas Entrelinhas

Moro no poema,

nas entrelinhas,

no imprevisível.

E aparece o riso:

breve galope.

E aparece “ O Corvo”

quase em surdina.

Em outras palavras:

entro de novo no rio.

Por minha conta

desafio e risco.

Concluindo, a expressiva criação de Sônia Maria Santos é um abraçar que acolhe o simples e o reelabora, transforma o fácil em complexo, que flui no tempo como um rio imprevisível, instigante, desafiador, sempre a inundar de misteriosa beleza o universo da sua poesia.

Goiânia, 30 de outubro de 2010

* Heloisa Helena de Campos Borges é Mestre em Teoria da Literatura

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