Poesia, palavra feminina

Antonio Olinto*

Texto publicado na Tribuna da Imprensa – RJ (edição de 06/11/2007)

Desde pelo menos Cecília Meireles soubemos que a mulher brasileira atingira o mais alto domínio da palavra posta em poesia. E outros nomes a seguiram: Marly de Oliveira, no final dos anos 50 do século passado, estreou com sua poesia nova, de que o livro de 1961, “Explicação de Narciso”, foi a mais clara evidência de que a poesia feminina passara a representar o próprio país. Em seguida, tivemos, como temos ainda, Stella Leonardos e Astrid Cabral, entre muitas outras.

Agora surge uma autora que pode ser incluída nessa categoria. Trata-se da goiana Sônia Maria Santos, cujo livro de poesia recém-saído, “Todas as fábulas”, merece toda a atenção. Seus versos e suas palavras são de extrema leveza e fluem num ritmo sereno, o que realça também o lirismo de cada poema seu.

Leia-se, como exemplo de seu fazer poesia, este “E ainda canto”: “Vivo o dia:/ o de hoje, o de sempre/ – admirada -/ de ter mudado tanto/ e de não ter mudado nada;// de deixar fluir o canto/ como se numa carta; // e a esperança,/ a quase impossível,/ como se fosse água.”

E eis como Sônia Maria Santos descreve uma Procissão do encontro: “O vaso branco / cheio de rosas / sobre a janela / e a toalha clara, caída em pontas/ é para quando a procissão passar./ Entre rezas/ velas/ incensos/ o doloroso encontro,/ depois de dois mil anos,/ ainda vou chorar.”

Claro é que poesia se faz com palavras. Mas não só. Ela se faz também com o espaço entre uma palavra e outra, entre um verso e outro, ela se faz com o silêncio, com a sabedoria de usar o silêncio, com a alegria de usar o silêncio, com o substantivo certo no meio dos adjetivos. Veja-se, nesta “Revelação”, o modo como os substantivos marcam a descrição de uma cena antiga, a da Samaritana à beira do poço.

Às vezes, Sônia Maria Santos usa duas palavras irmanadas em uma como nas “frágeis” e “ágeis” camadas de seu penúltimo verso em “Inevitável”: “Vai o poema/ entre uma nuvem e outra,/ como se fosse um barco./ Vai alto,/ o que antes/ foi dor súbita,/ inevitável,/ nas (fr)ágeis camadas/ do corpo e da alma.”

Quando mencionei Cecília Meireles como a iniciadora de uma nova fase da palavra posta em poesia pela mulher brasileira, é justo que cite agora o reconhecimento de Sônia Maria Santos à sua antecessora, num poema chamado “Ouço de Cecília”: “Ouço de Cecília / no seu infinito / a verdade acabada: / “A vida só é possível / reinventada … “/ na exímia curva / da palavra; / no riso e no choro;/ no reino/ de verdes sentimentos; / no sonho.”

A poesia de “Todas as fábulas” tem no fundo, a marca da alegria de viver, numa convivência entre essa alegria permanente e a consciência de que as coisas – são reais – as coisas mesmo que nos cercam, nos marcam, nos formam e nos levam a sonhar às vezes, outras às portas do desespero. Mas, na força das palavras que escolhe para se apresentar diante do poema, chega a haver um orgulho de estar resvalando pelos dias com os sentidos abertos, acompanhando os oráculos e disposta a carregar pedras “para entender os desígnios”.

E mesmo depois de tudo, há sempre uma esperança de que muito de cada pessoa permaneça, o que a autora exprime neste “Mal sei”: “Mal sei aonde irão os passos / a que praças, / ensolaradas ruas, / onde uma a uma / – suponho – / hão de tremer as copas / todas as árvores. / A que casa mais antiga iremos, / homens e mulheres, / cantar cantigas primordiais / ou permanecer em silêncio? / A que casa mais antiga / à antiga face / retornaremos?”

“Todas as fábulas”, de Sônia Maria Santos, teve a coordenação gráfica da Editora Kelps de Goiânia, GO. Diagramação de Weslley Rodrigues, Capa e ilustrações: DEK, arte final de capa de Cláudio Evaristo, revisão de Eliane A. da Silva.


* Antonio Olinto é membro da Academia Brasileira de Letras