Poesia de Alma

José Fernandes*

— Intriga-me a existência de pessoas que não lêem e que não possuem o sentimento do poético. Ler um poema, daqueles nascidos do fundo ser do lírico, causa uma sensação só explicada pelo sublime, entendido como superlativo do belo e fundamento do estético, porque, criado com inteligência e liberdade de linguagem, eleva-nos à esfera do Divino, à medida que insere o leitor na semiosfera do sagrado.

— Foi exatamente essa sensação que experimentei à leitura de alguns poemas do livro Matéria da Alma, de Sônia Maria Santos! Repare, por exemplo, o poema a que ela, inteligentemente, intitulou Frei Juan de La Cruz! Os versos parecem nos inserir naquela atmosfera mística vivida e materializada em linguagem pelo Santo, não sem razão cognominado protetor dos poetas de língua espanhola. Se os versos do poeta renascentista ressumam estética e santidade, os da poetisa representam, como suas imagens mesmo o revelam, uma espécie de corrente aqüífera que se estende até seu poema, que também é milagre em palavras convertido. À semelhança do Santo poeta, também seus versos carregam, intrinsecamente, o caráter literário e, em uma dimensão moderna, também o caráter teológico, em intencional intertextualização que reflete a consciência estética da poetisa.

— Ainda não li o poema e nem conheço o livro! Você bem poderia dar uma palhinha, a fim de que me prepare já para leitura que, certamente, me será gratificante!

— Sinta só o que é o sublime poético: “Ao menor sinal de vento/de água corrente/de pedra e musgo,/seu pé no chão/e a bondade.//Na barra da tarde, Frei Juan/entende-se com seus irmãos de alma./De dores, principalmente.//Faz poesia, derrama seu cálice.” A imagem, fecho do poema, “derrama seu cálice”, reveste-se de uma riqueza semântica incrível, pois, além de materializar a dor inerente à condição de humano do Santo poeta e de “seus irmãos de alma”, interliga seus sofrimentos aos de Cristo, mediante a simbologia inerente à palavra cálice, no sentido de transubstanciação da palavra e, sobretudo, de silêncio, entendido como liberdade, à medida que o ser lírico fala para esconder e esconde para revelar a essência e o fundamento do humano.

—Se todos os poemas se compuserem de imagens esfuziantes domo essas, a leitura desse livro permitirá ao leitor empreender aquela viagem essencial proporcionada pelo belo estético, naquilo que ele encerra de sagrado?

— Sem dúvida! A revelação de que ao poeta sabe construir seu mundo de linguagem, hoje, é medida não apenas pela capacidade de transubstanciar a palavra em imagens das mais variadas conformações, como as imagens eólicas, hídricas e hierofânicas, que se vêem neste poema, como, sobretudo, pela consciência do poético impressa à metalinguagem. Ela é o termômetro do saber impresso à própria raiz da palavra poesia, em grego, pois, “poiéo” significa fazer. O poema a que a poetisa titulou Nas entrelinhas mostra, como que com o dedo, verdadeiro passeio pela arte, substantivado por imagens hipotâmicas, uma vez que o rio, conforme lembra a filosofia de Heráclito, simboliza a eterna renovação, o eterno fazer-se. Por isso o ser lírico entra “de novo no rio”, porquanto a coisas estão sempre sendo e não sendo, ao ponto de, sob certo sentido, não se fazer o mesmo poema duas vezes, uma vez que o momento é outro e, em decorrência, a pronúncia também será outra.

— Esse poema, só por essa imagem, me aguça a curiosidade! Você me permitiria lê-lo, agora, já que você tem o livro?

—Claro! Veja só como ele inicia e termina: “Moro no poema,/nas entrelinhas,/no imprevisível./E aparece o riso:/breve galope./E aparece “O Corvo”/quase em surdina.//Em outras palavras:/entro de novo no rio.//Por minha conta/desafio e risco.” A referência ao poema de Poe constitui a própria margem do poético: aquela quarta encontrada no fundo do verbo e do rio que flui e reflui segundo a ousadia de cada poeta. Por isso, a consciência do desafio e, mormente, do risco que é fazer-se e refazer-se em palavras.

— O risco do fazer poético tem alguma coisa a ver com a alma e, portanto, com o título do livro?

— Sem dúvida! Se a poesia visa a estabelecer um diálogo entre o ser e a essência, entre o humano e sua substância, a partir do momento em que o poeta se lança ao poético está se revelando, porque em diálogo consigo mesmo, desvela-se em linguagem. Assim entendido, ele corre o risco consciente de o discurso transformar-se em matéria e substância de humano e, em decorrência, matéria de alma, sobretudo se entendermos alma como a suprema fundura do ser, naquele sentido metafísico e teosófico intrínsecos ao homem, uma vez que ele fora criado pelo pensamento e pela palavra do Criador. A palavra poética, sob essa concepção, ultrapassa as dimensões da pronúncia e se insere em um ritual em que o humano se eleva e se enleva ao divino, como podemos ler no poema Só o verbo, em que esse processo se reveste de singular magia verbal e, como conseqüência, em singular mistério de alma na dimensão do lírico: “Não mais/sobre a pedra/o cordeiro degolado,/no manto claro/azul do dia./Só o verbo/com sua lâmina/desce à cabeça,/à linha estreita, à escrita;//gota a gota,/num cântico,/com a face erguida.”

— A bricolagem do texto bíblico é perfeita, uma vez que se mudam o rito e o ritual, em que se imolava o cordeiro, e o converte em palavras que, no rito e no ritual, conferem ao ser lírico a dimensão do sublime, porquanto se instaura um novo sacrifício em que a palavra é transubstanciação! Ante o esplendor do belo, só nos resta agradecer a Deus pela graça da inteligência e da liberdade do fazer-se e do tornar-se poesia de face erguida: Deo gratias et Mariae!

*José Fernandes, membro da Academia Goiana de Letras

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