O Verbo Úmido

José Fernandes*

O poeta, ao compor o poema, exercita uma função cosmogônica: recria o mundo através da linguagem, para isso, cada palavra deve renomear uma nova verdade, uma nova essência de ser e de ente, ainda desconhecida dos Deuses. Mesmo que o poeta intertextualize acontecimentos, versos ou relatos cristalizados pela cultura, eles têm de receber um novo sopro, tem de ser renominados por um Fiat ainda impronunciado. A poetisa de Casa do tempo, Sônia Maria Santos, conhece bem estes princípios básicos da moderna arte poética, como verificamos no poema de abertura do livro, intitulado Sopro. Ora, o que é o sopro, senão pneuma, alma, espírito, vida? Vida que se desprende da palavra e se torna linguagem, ser de tudo de nada.

Quando a poetisa afirma que No princípio é o sopro, o caos que antecedia a palavra, presente nas mitologias egípcia, hebraicas e grega, já se transformara em cosmos, porque a palavra pairava sobre o abismo, esperando a enunciação do Poeta Maior. Do mesmo modo, o verso antes do dia com suas casas não somente representa a luz que se estendeu sobre o caos: mas, sobretudo, o domínio das trevas, imposto pelo poeta a cada nova palavra que forma o poema. As casas, neste contexto, se transformam no espaço vital do ser que se desprende do nada e em alicerces da linguagem que o consubstancia.

Esta postura hermenêutica nos leva a constatar que o ar lavado/ que a tudo cuida/ conduzindo a fala não é apenas o sopro que insufla vida aos seres inominados: é, antes, o logos deslocando-se sobre os objetos e conferindo-lhes essência, quer no fiat do Grande Poeta, quer no verbo da poetisa, é um conduzir mútuo, uma vez que fala e sopro são conceitos e ações interdependentes e compatícipes na ordenação e na recriação do caos. Assim compreendida, é que a fala do poeta se converte em flauta de mil sons/ entre o céu e a terra/ e a paciência de Deus, porque sopro que anima e reanima os objetos que permanecem nas sombras, aguardando a palavra da poesia.

A ciência do poeta, segundo este prisma, não tem limite, porque transubstancia o real objeto ou o real lingüístico em imagem, a ponto de os raios do sol se converterem em jubas no matinal poético de Sônia. Em decorrência, a casa de palavra e de ser, porque verdade em linguagem, fica acesa, cheia de vida, no calor do sol e no sopro da palavra. É o diálogo da poetisa com o dia-a-dia em coisas que são matéria poética e com os outros humanos, porque poesia é, antes de tudo, diálogo, fala, revelação de verdades, manifestação de ser.

Este diálogo fica bem claro, quando a poetisa Stella Leonardos saúda Casa do tempo na magia de um poema, prosa de poetisas que redimensionam o mundo em palavras, tecendo histórias e verdades múltiplas e únicas:

          Entrando em Casa do Tempo

Mais que poema restante na página
à prova de vida e morte,
folha-de-rosto do tempo.

Ensaias um círculo de luz
e pões dentro
o olmo do tempo
com tua espada

– a dos círculos mágicos.

A imagem do círculo de Stella Leonardos encerra a filosofia que perpassa o livro de Sônia Maria Santos. Se o primeiro poema é o sopro primordial, que materializa toda esta obra poética, o último é o lançar-se para o futuro, na esperança de que a palavra seja capaz de libertar o sujeito lírico das vicissitudes desse mundo que se esboroa. Por isso, Enquanto soprar sobre a casa o vento, e romper a manhã pondo sol em tudo,/ um sonho me conduzirá/ por lugares que nunca vi:/ nítidos e claros,/ úmidos de Deus./ Bem longe desse nosso louco mundo.

 

 

* José Fernandes é professor da UFG e membro da Academia Goiana de Letras
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