O Ser Poeta

Maria Helena Chein

A poética de Sônia Maria Santos mostra que consciência, espírito criador e realidade interligam-se, numa fluidez de pensamento existencial, constituindo a dinâmica de sua produção. Vivendo e criando, na busca cruel de sua identidade universal, Sônia deságua-se numa metamorfose que procura desvendar mistérios humanos, ou ainda, a sua própria individualidade.

Tem a poesia nas mãos, nos dedos e olhos. Sua cabeça é poesia, dessa que dinamiza cérebro e nervos e resgata o profundo para sempre. E as palavras vêm, os versos se alinham e está construído o mundo mágico, a partir de uma realidade transformadora.

Poeta de força e sentimento, integra o prosaico dia-a-dia em elemento-chave de sua criação, num seguir como o de outras mulheres, mas com o caminhar diferente. Em cada virada do cotidiano inventa e redescobre. O pão se transfigura, a mesa preparada para o almoço traz a magia de sua vivência e o ponto final de seu dia enreda-se em símbolos. E Sônia não pára. Começa. Com o vigor de quem não se intimida com a palavra, nem com as imagens. Sua poesia tem todas as dores, risos e incertezas, num aproveitamento completo de suas erupções, sua brandura e questionamentos, naquela volta profunda ao interior, onde:

“Sou invenção das manhãs e das tardes
dou crias a todo instante
e a bem da verdade
sou embrião a toda hora
nesse parto incessante.”

Nos versos, a “dança louca” de todas as mulheres, no buscar espaço, no doar em cada segundo, na multiplicação de seu tempo, bipartindo-se, alongando-se, quebrando-se e ficando inteira, num paradoxo processual de vida.
Sônia abre uma fenda em sua solidão e depara com o mundo: heterogêneo, belo e terrível e é dessa união que se incendeia, energiza-se e põe-se a fazer o depoimento de seu instante, aonde o impulso maior é o amor:

“amo as galés
os submetidos
o bem e o mal em elos divididos.”

Em seu ato mais simples, como dobrar o lençol e saber da chuva, cresce em vôos e encontra-se a decodificar os espantalhos do tempo, numa firmeza de quem sabe enxergar no escuro e, só aquele que se inunda de poesia, pode gerar versos assim:

“de cheirar em sei até da morte“
“arranhei meu sonho com raiva”

numa prova de que acuidade sensorial chega à emoção em desdobramentos significativos, num desabar de sentimentos. E são esses sentimentos que Sônia define, transmuta e incorpora ao seu fazer poético com a dimensão dos que vão longe.

Sua intenção agora é o registro bem dosado, numa elaboração trabalhada, de seu estar no mundo, não apenas estando, porém muito mais, propondo a valorização do homem e uma harmonia entre o eu e a realidade exterior.

É cedo ainda e a poeta tem força, garra e está perplexa ante o desenrolar do novelo.

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