A poesia de Sônia

José Luiz Bittencourt*

     A palavra é um dom de proclamada excelência e tem sua missão no mundo. Recordo que José de Alencar, em admirável trecho, disse ser a palavra um dom celeste que Deus deu ao homem e recusou ao animal. Trata-se da mais sublime expressão da natureza: ela revela o poder do criador e reflete toda a grandeza de sua obra divina. Mensageira invisível da idéia, incorpórea como o espírito que a anima, íris celeste do nosso espírito, o sentimento faz dela a chave dourada que abre o coração às suaves emoções de prazer.

Também assim um bispo da igreja, reconhecido orador sacro, teólogo, filósofo e notável homem de letras, que se chamou Antônio de Almeida Morais Júnior, fez o elogio da palavra invocando Paul Valery e seu belo livro Piéces sur I’art. Escrevendo sobre a pirogravura, uma das artes mais difíceis, o escritor francês concretiza o esforço necessário para graduar a chama guardando a intensidade precisa para exprimir um traço mais profundo ou mais leve, conforme o desenho que se deseja gravar. Certamente, a palavra tem essa função de estranha potencialidade e é por isso uma simples e delicada flor do sentimento que se eleva até o fastígio da grandeza humana. Uma flor que desata o botão de uma rosa cheia de viço e fragrância.

Pois é da palavra que Sônia Maria Santos faz a universalidade dos versos que emergem da sua alma de poeta . Ela cultiva a boa poesia, que é rara, porque raras ao as pessoas que podem entrar nessa comunhão, segundo a definiu, em magnífica síntese, o nosso José J. Veiga, quando escreveu sobre a perfeição e a delicadeza dos seus poemas. Três livros já têm publicados, a saber, A Teia dos Dias, Casa do Tempo e Mar Invisível, este último recentemente lançado, que caracteriza uma navegante em paz com o infinito, um produto da inteligência e sabedoria, capaz de independer de fronteiras próximas ou longínquas, de acordo com o que, em parecer crítico, opina o jornalista e historiador José Asmar, membro da nossa Academia Goiana de Letras.

Os poemas de Sônia Maria Santos, expressivos na linguagem cristalina, concisos como se fossem haikais, por vezes surgindo à imagem de Baudelaire, conduzem a um mundo de serenidade e de paz, “onde a humana história se repete, o mar se recorta e o próprio tempo não tem beirais de sono”. Eles têm a palavra certa no lugar certo e expressam, com muita clareza, o sentimento de uma jovem mulher de nenhum preconceito diante da realidade de quem vive com um olho “para escândalos e com outro entregue à beleza das flores”. Como Rilke, nos seus textos poéticos, desnuda as emoções mais íntimas e sentimentos particulares em falas dionisíacas, que se transformam aos poucos em termos confessionais da sua subjetividade.

Tenho, por dever de ofício, a alegria de saudar o Mar Invisível, esse livro de muita beleza lírica que Sônia Maria Santos a todos acaba de oferecer. Um livro revelador de encantadora e extasiante poesia, significativa suma lírica que alteia uma voz feminina portadora de esperançosa mensagem de paixão e amor à vida. Que semeia a palavra da verdade e do bem. Sem a fantasia do pecado e a polifonia do mal.

 

* José Luiz Bittencourt é membro da Academia Goiana de Letras e Ex-vice Governador do Estado
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