A Poesia Como Ato De Ver

Luiz Fernando Valladares

Ao lado de inúmeras poetas (antigamente dizia-se poetisas) de grande valor, podemos detectar entre nós algumas que, simultaneamente com outras dos grandes centros do País, estão realizando uma poesia expressiva da condição feminina. Não se chame esta poesia de “poesia feminina”, por absoluta impropriedade terminológica, mas se a observe como a que expressa uma visão feminina, num poema feito por mulheres que se vêem e se situam com seus problemas, complexos, anseios e afirmações, todos particularíssimos, no conturbado contexto deste nosso pobre, louco e amantíssimo mundo.

Sem pretender laborar teorizações, muitas das vezes urdidas de palavras pseudo-eruditas, arquitetadas em chatos esnobismos vocabulares, tem-se caracterizado esta poesia por um sentido de busca de uma nova dimensão para a mulher, o poema impregnado de cotidianeidade, num poetar que reflete intensamente o dia a dia. Presente um tom confessional, íntimo, subjetivo. Às vezes uma coisa dessas mais do que outra, um desnudamento menor ou maior, mas sempre presentes essas cores existenciais, numa sacralização sem arroubos dos pequenos atos diários como o comer, cozinhar, amar, cerzir, numa descoberta e afirmação plena do corpo e da mente, o que possibilita dispor de diversas alternativas para a ação; mesmo que, às vezes, rompendo a grade de controle social de antigas normatizações.

Enfim um poema que veja “o simples e duro sacrifício de todo o dia”, como já se disse alhures, numa poesia que seja revelação.

É nesta linha que a autora vem, vê e revela: “Convivo com as mulheres de mãos carregadas de peso/ de tantas cestas/ migalhas/ concessões/ que a noite abraça os nossos sonhos/ feitos de frutos/ de verdura e pão.”

Fala a poeta estreante uma linguagem madura, pessoal e elaborada, a surpreender agradavelmente, deixando, ainda, cair como uma pitada de sal, um pouco do mágico:

“…mãos trabalhadeiras
das mulheres serviçais.
Têm a luz nascendo nos dedos.”

Se ”/ … os dias se sucedem/ sem nenhum amigo/ Sem dar à vida o tamanho de um destino”, este livro de Sônia, A TEIA DOS DIAS, estou seguro, indica uma inequívoca predestinação, um destino na direção do fazer poético.

Se alguns laivos do contar, se alguns retoques podem ser necessários, se, algum excessivo subjetivismo for anotado, fique como magnífico a difícil simplicidade alcançada, o despojamento natural e a força de uma poética voltada para o humano, que se exercita”. . . sem vontade de ficar só/ ou de tirar o mundo a limpo”, e em interrogações lançadas ao espelho, onde autor e leitor nos miramos e nos recolhemos na angústia e na solidão de seres vivos e submetidos ao tempo:

“. . .de que remorsos
destroços
felicidades
acaba o dia? . . .”

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