A palavra poética de Sônia

José Luiz Bittencourt*
Texto publicado no Diário da Manhã – GO (edição de 08/11/2006)

Já septuagenário, o poeta mineiro Annibal Augusto Gama estreou em livro com uma coletânea de poemas sob o título 50 anos Falando Sozinho, nele reconhecendo alguns críticos, como Wilson Martins e Mário Chamie, um nome de excelência de nossa poesia, até mesmo situando-se ao lado de Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade. O escritor e jornalista Gilberto de Melo Kujawski chegou a dizer que ele nutre o maior e mais profundo respeito à palavra, “que é grão a ser cultivado com carinho e desvelo, de modo a florescer no poema a partir de duas forças internas, sem o arbítrio e o voluntarismo irresponsável dos vanguardistas”. Segundo afirmam os que fazem da palavra gato e sapato, profanando-a e desintegrando-a sem o menor escrúpulo, perverte a relação à semelhança dos políticos.

Todas as Fábulas é a significativa denominação que Sônia Maria Santos atribui ao seu novo livro, que aparece apresentado por Miguel Jorge, e para nos oferecer “um mínimo de linguagem e muito de imagem num crescendo, em nível de amor dos corpos, da alma e com a soma de todos os sentidos”. Com efeito, trata-se de uma poesia autêntica que valoriza o sentido da palvra, que não é manipulada com extravagância, mas de apaixonado gesto pela estética sem os tentáculos sufocantes da própria criação poética. Brota da espontaneidade sentimental, alimentada por uma estesia de musicalidade, que se ajusta à razão do ser com o frescor e a voracidade de quem sabe muito bem expressar os instantes da vida interior.

Em 1985, com prefácio de Maria Helena Chein, lançou Sônia Maria Santos o seu primeiro livro. De fato, A Teia dos Dias mereceu boa acolhida da crítica, pois dela foi dito que “tem a poesia nas mãos, nos dedos e olhos, sua cabeça é poesia, dessa que dinamiza o cérebro e nervos e rega o profundo para sempre”. O segundo livro, Casa do Tempo, veio em 1995 e foi saudado por José Asmar, que confirmou a virtude dos versos espontâneos, “inclusive sobre qualquer impulso técnico ou de estilo, eis que seu poema dispensa guardas e salvaguardas normativas”. O terceiro, Mar Invisível, surgiu em 2000 e sobre ele Stella Carr declarou encontrar um lirismo de textura mansa, pequenas peças de tristeza, sem lanhos de amargura, apenas roçando leves nostalgias.

Em Todas as Fábulas, Miguel Jorge identifica a presença de uma poesia que se faz necessária para a modernidade, “instrumento lírico verbal que nos concede, pouco a pouco, o sentido de viver e vivenciar a vida, que nos atinge e nos envolve com todas as suas nuances”. Verdade é que, como já patenteou Juan Ramón Jiménez, a poesia se torna por vezes ideal para acolher fragmentação do Eu, que parte de uma premissa inquietante, mas forte. Pauta-se também pelo movimento, pelo desinteresse em destinos fixos e pela disponibilidade para o presente, como tem afirmado, aliás, exegetas de alto coturno cultural e habituados à fome volúvel de poder falar nem que seja aos ventos, fugindo de tempestades e nevoeiros. Sem jamais esquecer que “a palavra é grão a ser cultivado com carinho e desvelo”.

Essa poesia de Sônia Maria Santos é de primeira categoria e ela segue a língua-padrão de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Mário Quintana. Uma língua-padrão que lhe permite dizer com absoluta singeleza que “numa manhã clara, perfeita, uma veia aberta ferida matém o fogo secular e a fé como se eu tivesse de Theresa de Ávila as asas e a paixão”. Mística, amorosa, melancólica, triste, sempre pensando no Absoluto e no Eterno, acendendo lâmpadas aqui e acolá, rezando na hora do Ângelus e em sintonia com a vida, em Todas as Fábulas Sônia Maria Santos dá passaporte livre a uma mulher que conhece o xadrez misterioso da poesia, cultiva pétalas de rosa e caminha soberba na via-sacra deste mundo.

Digno de relevo é o seu franciscanismo pedindo o poema a Santa Clara e ao “poverello” de Assis, “os ossos do ofício, o fio da fábula desde o princípio”. Mesmo quando “as líbelulas passam rasantes sobre poças: uma festa. “Deus é amor”, atesta João, Sequer os musgos silenciam, sequer os homens, (a dor interna cresce, a alegria, o estarrecimento porque vivemos) frementes e ruidosos peregrinos.”

“Porque tudo se resume e se dissolve a todo o momento”, Sônia Maria Santos constrói sua poesia à sombra também de um misticismo evangélico, “deslizando no poema, no seu sistema, como se fosse um oráculo. Mas preferindo Picasso com suas mulheres de decompostas faces, ainda assim resta-lhe “o coração vivo de Joana D’Arc entre cinzas.” E o resto é silêncio, dizemos nós!

 

 

* José Luiz Bittencourt é escritor e ex-vice-governador de Goiás
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